..:: O Lado Oculto do RH ::..
Estar na condição de desempregado significa experienciar situações de violenta tensão e exclusão, as quais têm um impacto relevante sobre toda a estrutura do ser e sua relação com a realidade. Envolve desde o sistema pessoal de crenças do indivíduo, até suas relações valorativas consigo próprio, com a sociedade, a economia e os círculos familiares. Sob pressão, constante, de todos estes mecanismos e inter-relações em todos os níveis, existir é ter uma carga dramática de significados, escolhas, ações e decisões que se tem que tomar pesando sobre o ombro a cada passo dado. Errar significa, ao senso comum mais que a desonra, significa a continuidade da privação e toda sua coorte de problemas. Desconhecer ou desprezar as complexas relações entre todas as instâncias que compõe o homem, em função de um perfil é reduzi-lo a uma insignificância. Suas emoções, atitudes, pensamentos e comportamentos não somente são frutos da escolha pessoal, mas deste atrito e sinergia entre todos os fatores envolvidos.
No mecanismo acima descrito ainda se insere a etiqueta social determinando um protocolo de atitudes, os perfis profissionais exigindo competências, os jornais e revistas estampando procedimentos, especialistas inventando necessidades, o mercado exigindo retorno, as empresas clamando por excelência. Contudo, o que se vê, quando se está em situações de transição de carreira é um passeio pelo labirinto áspero e misterioso dos subsistemas de Recursos Humanos e dos paradigmas-minuto. No mundo corporativo, vale muito a habilidade de intermediar a comunicação das competências, do que possuir o real conhecimento. Mais que isso: são signos expostos da materialidade e aguardamos as novas pitonisas que os devem interpretar e dar seu parecer. Ao inverter, de forma perversa os parâmetros de análise, estes formadores de opinião acreditam que é o mercado que exige isto ou aquilo. Interpreta-se, na verdade um sincretismo de acento positivista.
Deste modo, têm-se criado exigências impossíveis, processos falhos e situações de alto estresse para desempregados, que terão que enfrentar perguntas como: resuma sua vida objetivamente (em dois minutos, que é como eu quero, senão está fora); faça um plano de contribuição imediato à empresa (não diremos nada:você deve saber como fazer); seja julgado como se veste em uma fração de segundo (acreditem, saiu na capa de uma revista); hormônios indicam competências (testosterona gera vendas.); percepção = realidade (!?), Fotografias decidem sobre competências.
E funcionários: você não cumpriu sua meta (ela era impossível, mas cobraremos do mesmo jeito); Você deve obedecer (mesmo se for a um líder negativo); Aqui as coisas são assim (e pronto!); Você não entendeu o ponto (não seja melhor que nós!)... Entre outras sandices desmotivantes, contraproducentes e, principalmente não-científicas.
Luis Sergio Lico
Filósofo, Escritor e Palestrante (10-Julho-2008)
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