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"Um terço dos analfabetos foram à escola e saíram de lá sem saber ler e escrever"
Revista AOL - 09Nov2004
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Para o pesquisador Gustavo Ioschpe, o modelo de ensino brasileiro é completamente arcaico e descolado da realidade. Foi pensado pelas classes ricas para as classes ricas, mas é um ensino de um século atrás, que não gera interesse no aluno

AOL - Qual é o principal problema da educação pública no Brasil?
Gustavo Ioschpe
- O problema brasileiro está no ensino fundamental, que é de péssima qualidade. O que sabemos hoje é que a escola brasileira via de regra não consegue alfabetizar tanto em língua quanto em matemática. Um terço dos analfabetos brasileiros passaram pela escola e saíram de lá sem saber ler e escrever. É uma falência realmente total nesses primeiros anos de ensino. Quando se tem uma situação tão ruim nos primeiros anos escolares, onde a criança não aprende nem a ler nem a escrever, a progressão dela na escola é toda problemática e deficitária. É um desastre que está por acontecer. E acontece. A criança repete uma, duas, três vezes. Chega em um momento em que ela repetiu tanto e está perdendo tanto tempo em uma educação de tão baixa qualidade que acaba desistindo. Como o modelo de ensino brasileiro é completamente arcaico e descolado da realidade da vida dessas crianças, é uma educação que não gera interesse que desestimule o aluno. Dá para fazer um resumo geral da educação brasileira em uma palavra: elitismo. Temos no Brasil um ensino que foi pensado pelas classes ricas brasileiras para as classes ricas brasileiras. É um ensino que não interessa e não envolve as classes mais baixas. Creio até que nem mais as classes altas, pois é um ensino de um século atrás. O ensino tradicional está esgotado, não interessa a mais ninguém.

E a questão de vagas no ensino público?
Gustavo Ioschpe
- O problema hoje não é mais a quantidade de vagas. Há disponibilidade de escola. Em alguns locais, até sobram vagas. Então por que as crianças não estão na escola? Não é porque não têm escola, mas é porque a escola é tão ruim que a criança ou o jovem a abandonam. Por isso que me dei conta de que é fundamental a discussão sobre a questão econômica da educação. O progresso do jovem no sistema educacional é um disputa constante entre a educação e o mercado de trabalho. Um cálculo implícito é feito pelas crianças e pelos pais do custo-benefício da educação. O grande custo da educação é o custo oportunidade, que é o salário que você não vai ganhar se estivesse no mercado de trabalho.
O benefício da educação é tão grande que, mesmo uma educação ruim como a brasileira, ainda vale a pena. Só que vale a pena se você tiver uma progressão normal, não muito distorcida. Mas para um grande número de pessoas que está tendo uma educação de baixíssima qualidade, repetindo de ano, ficando atrasado, não vale. Quem tem 15 ou 16 anos com até cinco anos de escola consegue um emprego razoável. Entre continuar na escola, que não está acrescentando nada, e ir para mercado de trabalho, escolhe-se a segunda opção. Esse é o x da questão e é por isto que esta discussão econômica me parece fundamental. Senão, vamos continuar assim, oferecendo vagas, construindo escolas, debatendo pedagogia e vamos continuar oferecendo uma educação que não atende às necessidades das pessoas. Podemos criar Bolsa Família, fazer transferência de renda, o que quiser. Enquanto ficar na escola for mais custo que benefício, a evasão vai continuar.

A questão da qualidade de ensino não passa por um debate pedagógico?
Gustavo Ioschpe
- A discussão pedagógica no Brasil é completamente teórica e etérea, e acaba não levando a lugar nenhum. É preciso ser prático. Selecionar uma amostragem de dezenas de escolas e medir o desempenho das crianças no início e no final do primeiro ano escolar. Daí seria possível ver dentre todas as pedagogias usadas o que realmente funciona. Não vamos esquecer que não estamos conseguindo alfabetizar nossas crianças e que esta deve ser a prioridade. É preciso identificar uma prática pedagógica, que não precisa necessariamente ser de uma escola filosófica/pedagógica particular, que dá certo e que alfabetiza crianças no momento em que elas devem ser alfabetizadas, ou seja, na primeira série. No mundo inteiro, e mesmo em países mais pobres que o Brasil, as crianças são alfabetizadas. Então, pedagogia para alfabetizar existe. Nos países desenvolvidos essa questão da educação e da alfabetização foi resolvida no começo do século XX, mais de cem anos atrás. Então não dá para dizer que não se sabe qual é a pedagogia que funciona para alfabetizar, claro que se sabe. O problema não é pedagógico.

Qual é então a causa do problema?
Gustavo Ioschpe
- O problema é político. Não há uma rede de incentivos que faça com que o Estado brasileiro se obrigue e consiga educar as crianças. Para entender a dinâmica inercial deste problema é preciso mapear quem são os atores deste processo que deveriam pressionar para que a educação brasileira fosse de melhor qualidade e entender porque eles não o fazem. Em primeiro lugar você tem os alunos, as crianças. Elas não têm condições de julgar se a educação que estão recebendo é boa ou não. Ou seja, não podem exigir qualidade. Depois você tem os diretores das escolas. A maioria é nomeada por indicação política, são pessoas freqüentemente despreparadas. Além disto, para gerar uma educação de qualidade teriam de brigar e criar muito atrito com sua equipe de professores. Não é do interesse do diretor se desgastar porque o ganho vai ser difuso e as perdas muito concentradas, ele corre até o risco de perder o emprego. Se ele não tem apoio político não vai conseguir brigar por melhorais de qualidade de ensino. Ou seja, os diretores também são carta fora do baralho na luta pela qualidade.
Outro agente deste processo é o professor. A grande maioria dos professores brasileiros tem muito boa vontade, mas não são adequadamente treinados. Os professores “alfabetizadores” falham em testes básicos de competência pedagógica. Quando você pergunta como aprenderam a alfabetizar, qual foi o treinamento, mais 80% respondem que aprenderam na prática. Alfabetização não é algo que se aprende na prática. Para alfabetizar é preciso ter conhecimentos básicos de neurologia, de psicologia infantil. Saber ler e escrever não qualifica ninguém a alfabetizar uma criança ou um adulto. Não é culpa do professor brasileiro que ele não tenha este treinamento. Mas ele se recusa a admitir essa ignorância e culpa o aluno, acusando-o de falta de interesse. Portanto, o professor também não vai exigir essa melhora. Temos ainda os pais, que são o principal componente de transformação. Mas eles não têm condições de impulsionar a mudança. A escolaridade média dos brasileiros hoje é de seis anos. São esses os pais das crianças que estão na escola pública, que não têm ferramentas para saber se o ensino oferecido a seu filho está dando certo ou errado. Eles não sabem o que é uma educação de qualidade. É verdade que os pais se preocupam muito com a educação. Entendem que a escola é a grande alavanca de ascensão social e fazem questão que os filhos estejam na escola. Mas por falta de conhecimentos da realidade escolar eles não têm como avaliar a qualidade do ensino que está sendo ministrado. Os pais acabam também culpando o filho, dizendo que ele é preguiçoso ou que não tem interesse. A vítima vira o culpado.
O único ator que poderia e deveria agir para melhorar o sistema é o governo. Mas como os pais têm esta visão de que o importante é o filho estar na escola, o que rende votos é isso. O governante se preocupa em colocar a criança na escola e só. Aí termina a relação do Estado com a educação. Isso é um desastre. É preciso colocar na escola e oferecer uma educação de qualidade para que a criança efetivamente ganhe com ela. Se você larga a criança numa escola e não transmite conteúdo, a escola é um hotel, um abrigo. Não é uma escola, escola é transmissão de conhecimento e de competências.

Por que a situação da educação no Brasil chegou a esse ponto?
Gustavo Ioschpe
- Não só no Brasil, mas também em outros países observa-se o seguinte fenômeno: quando os pobres chegam os ricos vão embora. A escola pública era uma escola para a classe média. Quando passou a atender à quase totalidade das crianças pobres, começou a atrair crianças da periferia, de favelas, de nível socio-econômico mais baixo, os ricos saíram e foram para as escolas privadas, que é onde eles estão hoje. A elite brasileira exige serviços de qualidade do governo. Os filhos da elite hoje estão em escolas de ensino básico e fundamental privadas, mas vão cursar o ensino superior em universidade pública, que é de qualidade por causa da exigência desta classe. Tanto é que a universidade pública no Brasil é de melhor qualidade que as particulares, o que não faz nenhum sentido, não é assim em nenhum lugar do mundo.

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