"O custo da Ignorância"
Revista AOL - 09Nov2004
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Mestre em economia pela Universidade de Yale, o cientista político Gustavo Ioschpe diz que a baixa qualidade da educação condena o Brasil ao eterno subdesenvolvimento. Ele critica não só os governos, mas também educadores e pais. E, para valorizar a escola pública, defende o fim da dedução de gastos com escola particular no imposto de renda e a cobrança de mensalidade pelas universidades públicas
Márcia Abos, especial para a AOL
"Se os baixos índices de qualidade de ensino atuais se mantiverem, o Brasil vai se tornar inviável. Enquanto o resto do mundo passa por um processo de massificação do ensino universitário, o Brasil não consegue nem dar educação básica de qualidade e alfabetizar a maioria de sua população", afirma Gustavo Ioschpe, cientista político e mestre em economia e desenvolvimento econômico pela Universidade de Yale.
Ioschpe publicou recentemente o livro ‘A ignorância custa um mundo’, fruto de uma pesquisa que mostra a relação entre educação e desenvolvimento econômico. Os resultados reforçam o relatório divulgado semana passada pela Unesco, que coloca o Brasil em 72º lugar no ranking de Desenvolvimento Educacional. "Cada ano a mais de escolaridade resulta em um aumento médio de 10% da renda pessoal. Para o país, cada ano a mais de escolaridade de sua população gera um aumento de 8% a 10% no Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, no conjunto de riquezas geradas por uma nação", diz o especialista.
Em entrevista exclusiva à AOL, Ioschpe ressalta que a raiz do problema educacional no Brasil é a qualidade do ensino fundamental público. E não poupa críticas a todos os "agentes" envolvidos neste processo: Estado ("o governante se preocupa em colocar a criança na escola e só"), professores ("falham em testes básicos de competência pedagógica"), diretores ("a maioria é nomeada por indicação política, são despreparados") e pais ("não podem cobrar pois sabem o que é uma educação de qualidade"). "É preciso não só colocar a criança na escola, mas também oferecer uma educação de qualidade. Se você larga a criança numa escola e não transmite conteúdo, a escola é um hotel, um abrigo. Não é uma escola."
A qualidade do ensino deve tornar-se a prioridade de toda a sociedade brasileira, como aconteceu no passado recente com o combate à inflação, segundo Ioschpe. "Em todos os países onde houve uma mudança radical de escolarização que gerou desenvolvimento econômico, como nos Estados Unidos na década de 20 e nos Tigres Asiáticos, houve em primeiro lugar essa conscientização social."
Além da mobilização, Ioschpe lista medidas concretas (e polêmicas) que podem ajudar a reverter este quadro que condena o Brasil ao eterno subdesenvolvimento. Dentre elas, a criação de uma Lei de Responsabilidade Educacional, que avalie governantes a partir da qualidade do ensino oferecido, o fim da isenção de despesas com educação privada do imposto de renda e a cobrança de mensalidade nas universidades públicas dos alunos que têm condições de pagá-la. "A universidade pública não atende a nem 3% da demanda de educação superior no Brasil. Ou seja, ela é extremamente elitista."
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