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Tudo é matança, mas há algumas diferenças: o filho que mata o pai comete um parricídio. O filho que mata a mãe comete um matricídio. Os pais que matam o filho cometem um filicídio. A mulher que mata o marido comete um mariticídio. E o marido que mata a esposa comete (que horrível) um uxoricídio.
Para cada realidade concreta existe uma palavra adequada. Quando um avião desce no aeroporto, aterrissa ou aterriza. Quando o hidroavião pousa no mar, amerissa. E quando uma nave pousa na lua, alunissa ou aluniza. É bom saber que algumas palavras do nosso vocabulário vieram do francês e, embora possamos usá-las tranqüilamente, possuem correspondentes exatos no português. Para ateliê temos oficina; para complô temos conspiração; para menu temos cardápio; e para omelete temos fritada de ovos. Hoje, há quem diga que precisamos falar politicamente correto, evitando expressões racistas como: ele judiou de mim, a coisa tá preta ou você está denegrindo minha imagem. Até os brancos começam a se revoltar quando ouvem o vestibulando reclamar: Xi... me deu um branco! .............A distinção entre hora e horário é delicada, mas real. Hora pode ser definida como a 24ª parte de um dia inteiro ou como um período de 60 minutos. Já horário (tanto substantivo como adjetivo) refere-se a um período com mais de 1 hora: horário do ônibus, horário nobre, fuso horário, carga horária. Uma comparação: calendário é o período de dias, palavra proveniente de calendas que, em latim, era o primeiro dia do mês. .............Falar e dizer não são sinônimos. Quem fala, fala bem, fala muito, fala com alguém, fala diante dos outros. Já quem diz, diz a verdade, diz o que pensa, diz besteira, diz o que não deve. Falar tem a ver com o ato da fala. Dizer tem a ver com o conteúdo expresso por aquele que fala. Falou? .............Existe uma doença que admite os quatro usos que médicos e pacientes fazem dela: a diabete, a diabetes, o diabete e o diabetes. Por outro lado, no caso da palavra terminada em s, o adjetivo que lhe segue fica no singular: diabetes insípido, diabetes melito, diabetes sacarino ou diabetes sacarina. .............Li, certa vez, numa placa: "É proibida a instalação de autofalantes." O ouvido doeu. Não tanto pelo medo de ouvir alguém gritando pelo alto-falante, mas por imaginar como alguém poderia fazer o casamento entre um automóvel e um falante, que ainda por cima era proibido instalar. .............A prosódia indica-nos a maneira certa de pronunciar as palavras, levando em conta a sua tonicidade, conhecimento que ajuda a grafá-las corretamente. Rubrica fala-se rubrica, com o i tônico, mas não acentuado. Ruim é ruim, com i tônico, mas não acentuado. Maquinaria é maquinaria, com i tônico mas não acentuado. E pudico fala-se pudico mesmo, com i tônico, e esse i também não é acentuado. .............Metonímia é uma figura de linguagem em que se usa uma palavra no lugar de outra, estando as duas estreitamente relacionadas. Quando eu digo que a novela está sem ibope trata-se de uma metonímia, porque ibope é a sigla do Instituto Brasileiro de Opinião Pública, e o que a novela não tem mesmo é audiência, cujo índice, aí sim, é calculado pelo Ibope. .............Às vezes falamos com imprecisões de sentido, e valeria a pena caprichar. Por exemplo: febre alta. Na verdade, toda febre é temperatura alta. Febre baixa, pelo menos na medicina gramatical, também não existe. Outro exemplo: tirar a pressão. Se uma enfermeira tirar a minha pressão sangüínea eu morro na hora. É bem melhor pedir-lhe para medir a pressão. .............Hoje é hoje. Amanhã é depois de hoje. E depois de amanhã (sem hífens) é daqui a dois dias. E como voltar para o passado? Ontem foi antes de hoje. Antes de ontem é anteontem. E antes de anteontem? Trasanteontem. Por incrível que pareça. .............Depois do décimo carneirinho, podemos contar, sem hífen: décimo primeiro, décimo segundo. Depois: vigésimo, vigésimo primeiro, vigésimo segundo, também sem hífen. Depois: centésimo, centésimo primeiro... também sem hífen. E se a insônia for longa, milionésimo, bilionésimo, trilionésimo primeiro, trilionésimo segundo... e boa-noite! O vocativo é a palavra que serve para chamar alguém ou um animal. Se estiver no meio da frase, vem entre vírgulas. Se estiver no início, põe-se uma vírgula depois. Se vier no final, põe-se uma vírgula antes. Vejamos: José, e agora? E agora, José? Mas, José, e agora? .............Na frase acima, a palavra melhor pertence a três categorias gramaticais diferentes. O melhor (substantivo), se for melhor (adjetivo), melhor (advérbio) viverá. Deles, o último é invariável. A frase no plural fica assim: os melhores, se forem melhores, melhor viverão. Como tratar pessoas que ocupam cargos importantes? Um cardeal é Vossa Eminência. Um ministro é Vossa Excelência. Um prefeito também. Um reitor é Vossa Magnificência. Um padre é Vossa Reverendíssima. Um gerente de banco é Vossa Senhoria. Um coronel também. E o papa é Vossa Santidade. Se estamos acostumados a chamar todo mundo de você, é melhor mudar de hábito... .............Até no açougue é preciso falar bem. Quando queremos comprar a parte traseira acima das coxas do animal, devemos pedir alguns gramas ou mesmo um quilo de coxão. Trata-se do aumentativo de coxa. Há quem fale colchão, mas isso já é conversa pra boi dormir. .............O que comemoramos no dia primeiro de maio? Quem respondeu o Dia do Trabalho, deveria trabalhar em dobro nesse dia. Comemoramos o Dia do Trabalhador, em analogia com outras datas ao longo do ano em que lembramos o jornalista, o médico e a secretária. Esse feriado nasceu para homenagear operários mortos durante uma passeata no dia 10 de maio de 1889, em Chicago. ............. Vários nomes que, no singular, possuem na sílaba tônica um o fechado - povo, poço, glorioso e olho - no plural experimentam mudança de timbre. As palavras povos, poços, gloriosos e olhos são pronunciadas com o o aberto. É o caso também de novos, porcos e coros. Este é um exemplo de apofonia. E como toda a regra tem a sua exceção, gostos, tronos e bolsos têm o o tônico fechado. .............O uso contínuo de uma expressão errada torna o erro invisível. Poucos vêem o equívoco de usar a palavra penalizar no sentido de punir e castigar. É comum ouvirmos, por exemplo: os jogadores foram penalizados com a expulsão. Penalizar, na verdade, significa causar dor e tristeza. Ele ficou penalizado (ficou triste) ao ver a expulsão dos jogadores. O certo, então, é mudar o verbo da frase anterior, e escrever assim: os jogadores foram punidos com a expulsão. Várias palavras, no plural, adquirem significados diferentes. Ouro, no singular, é o metal precioso. Ouros, no plural, é um dos naipes das cartas do baralho. Bem é o contrário de mal. Bens são as propriedades que uma pessoa tem. Letra é um caractere do alfabeto. Letras é o curso universitário. Liberdade é o poder de escolher. Liberdades é quando a moça repreende o rapaz apressadinho: - Vamos parar com essas liberdades? .............No mundo da diplomacia, um deslize verbal pode abalar o relacionamento entre dois países. Jamais devemos chamar uma embaixadora de embaixatriz. Ambas as palavras fazem o feminino de embaixador. Porém, a diferença entre uma e outra é imensa: embaixadora é a mulher que ocupa o cargo mais elevado numa embaixada, e embaixatriz é apenas... a esposa do embaixador. .............Numa coluna de Domingo, Elio Gaspari deu um baita susto nos leitores. Escreveu: "Foram poucos os dignatários nacionais que saíram por aí denunciando essa anomalia". Dignatário não existe. Quem exerce cargo elevado é dignitário. Pertence à família de dignidade, dignificante, dignificar. Eufemismo? É suavizar uma idéia trocando a palavra ou expressão própria por outra menos desagradável ou chocante. Dizemos descansou em vez de morreu. Desviou recursos em lugar de roubou. O mais recente exemplo vem dos States. Clinton não admite 'relação sexual' com a estagiária. Fala em 'relação imprópria'. Doura a pílula. .............É só o que dá. Nos programas eleitorais , é elogio pra lá, elogio pra cá. Um candidato manda o outro pro céu. O outro, pro paraíso. O latim tem uma expressão que traduz esse puxa -saquismo interesseiro. É 'asinus asinum fricat' . Tradução : O burro esfrega o burro. O João Neves Tebeira anda encucado. ''Volta e meia'', diz ele, ''o presidente usa a palavra cassandra. Fui ao Aurélio. Nada. O que nosso homem quer dizer com tão misterioso ser?'' Ser cassandra, João, é ser ave de mau agouro, alguém que faz previsões sinistras. A história da profetisa de catástrofes vem de longe. Lá da mitologia grega. Foi assim. Apolo quis ser bonzinho com Cassandra. Concedeu-lhe a faculdade de prever o futuro. Mas a moça era rebelde. Desobedecia ao deus a torto e a direito. Resultado: Apolo vingou-se. Fez que ninguém acreditasse nas previsões dela. A adivinha podia acertar. Mas as palavras que saíam daquela boquinha entravam por um ouvido e escapavam por outro. Ninguém lhes dava bola. É isso. Manda quem pode. Desobedece quem não tem juízo. A "Isto É" não ficou atrás. Publicou a foto do príncipe Charles dançando tango em Buenos Aires. Na legenda, chamou-o de ''Sua Majestade''. Esqueceu um pormenor: o tratamento dado a príncipe é Sua Alteza. Resultado: a rainha Elizabeth não sabia que o príncipe viraria Sua Majestade. Cometeu com a "Isto É" a indelicadeza de permanecer viva. ............. Esta é o SBT. A rede de Sílvio Santos anuncia aos quatro ventos a volta das Chiquititas ''a partir das 19:00hs''. Cruz-credo! O SBT pode ter acertado no programa. Mas errou na indicação de horas. Com mania de grandeza, tropeçou duas vezes. Uma: a abreviatura de hora, minuto e segundo não tem plural. Outra: a pequenina recusa os dois pontinhos. É assim: 19h, 19h30, 19h30min50.
.............Tamanho é documento? Nem sempre. O artigo definido que o diga. Ele tem uma só letrinha. No masculino é o. No feminino, a. Recorrer a ele exige engenho e arte. Bem-empregado, traz benefícios ao texto. Do contrário, complica a vida de Deus e do mundo. O autor quer dizer uma coisa. Mas sai outra. Arma-se um rolo só. Quer ver?
.............O Dia dos Namorados vem todos os anos ... Com ele, a expressão ''namorar o agulheiro e casar-se com a almofada''. Conhece? Se você é moça casadoira, preste atenção. O recado é um alerta para as tímidas. Segundo as más línguas, as coitadinhas são fortes candidatas a tia. Retraídas, ficam ocupadas com costuras e bordados. Não vão à luta. O tempo passa. Elas sobram. Martins Pena criou a expressão. Ela aparece em "O Judas em Sábado de Aleluia". Na peça, a personagem Marocas lembra frase de outro personagem, o capitão Ambrósio: ''Basta de coser. Não hei de namorar o agulheiro nem casar-me com a almofada''. Você joga no time das envergonhadas? Tome precauções. Não pinte nem borde. Roldão Simas Filho, de Brasília, comenta: ''O jornal me fez conhecer dois novos verbos. Na Nota Oficial do governo do Amazonas, aparece conseqüenciar. No artigo de José Sarney, sentimentar, no sentido de apresentar sentimentos (condolências).'' Xô, coisa feia! ............. Dâmocles vivia em Saracusa. Lá na Grécia. Era um puxa-saco de carteirinha. Cercava de bajulações Dionísio, o tirano de plantão. Um dia, elogiou que elogiou a autoridade do mandachuva. Por ter poder, dizia ele, Dionísio seria pra lá de feliz. De fazer inveja. Mal-humorado, o ditador deu-lhe o troco. Mandou-o sentar-se no trono. Colocou-lhe sobre a cabeça uma espada pendente por um fio. A qualquer instante, a linha poderia romper-se. Quis, com isso, mostrar as inquietudes do poder. Moral da história: pimenta nos olhos dos outros é colírio. |
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