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A farsa da empregabilidade
(Ricardo Antonio Penschi, 13-10-2003)


Empregabilidade; não passa pelo crivo de uma análise


Em meados da década de 1990, um alento para quem esperava por uma solução para a questão do desemprego no Brasil parecia haver chegado sob a forma de um grande e novo mercado que se mostrava promissor: o Mercosul. A iminente criação de empregos parecia certa e agitou outro mercado: o mercado do trabalho, cujo progresso parece ser inversamente proporcional ao do mercado de trabalho.

Alimentado pelo pesadelo do desemprego, o mercado do emprego frutifica em meio à crise, vendendo a suposta garantia da empregabilidade: o conjunto dos atributos necessários para a obtenção de um bom serviço ou a capacidade de manter-se empregado, variando sua definição conforme o interesse de quem a elabora. No caso do Mercosul, a empregabilidade chegaria aos profissionais especializados em comércio exterior e com domínio do idioma espanhol. Textos alertando para a necessidade do aprendizado de uma nova língua multiplicaram-se em periódicos, quase sempre embasados na ameaçadora idéia de que "estariam fora do mercado de trabalho" os que não dominassem, além do português e do inglês, o espanhol. A demanda pelo aprendizado da língua "fundamental para a garantia de um bom emprego" gerou a abertura de novas turmas em antigas escolas de idiomas e um sem número de cursos de qualidade altamente duvidosa, muitas vezes ministrados por profissionais de competência e metodologia de ensino tão precárias quanto as instalações em que eram montados.

Mas os resultados práticos positivos no mercado de trabalho nacional por conta do Mercosul ficaram bem aquém do que se esperava, e a desilusão geral com seu potencial de geração de empregos fez-se sentir em uma debandada dos cursos de espanhol e na conseqüente quebradeira das escolas de ocasião. Os artigos dos especialistas em empregabilidade atestando o espanhol como imprescindível reduziram-se na mesma proporção que o número de cursos de idiomas patrocinadores dos periódicos que os publicavam. Hoje é bom ser fluente em espanhol, mas o entusiasmo dos que defendem sua necessidade para a conquista de bons empregos diminuiu consideravelmente.

O alarmismo em torno da necessidade de conhecer um novo idioma para a garantia da permanência no mercado de trabalho sem que haja um motivo suficientemente lógico para tal é um bom exemplo do tipo de engabelação a que ficam submetidos os que buscam seu crescimento profissional ou simplesmente qualquer meio de garantir sua subsistência. Do mais mal preparado ao mais bem formado cidadão, todos são potenciais clientes dos que fazem da promessa de soluções para a crise de empregos seu ofício.

Em um extremo, os cursos supletivos de um mês, garantindo a obtenção do diploma do ensino fundamental ou médio em apenas trinta dias. Uma denúncia veiculada no Jornal Nacional de 13 de setembro demonstrou como qualquer um pode, mediante pagamento de uma taxa de valor considerável, passar a ser considerado "formado" e apto a continuar estudos em graus mais elevados sem que seja necessário aprender qualquer coisa de fato. Basta ir a uma dessas "escolas", receber algumas apostilas e marcar um dia, no prazo de um ou dois meses, para a realização de avaliações - com direito de consulta às apostilas. Sendo aprovado, o aluno recebe o certificado de conclusão do ensino fundamental ou médio supostamente reconhecido pelo MEC. Caso contrário, pode realizar novamente as avaliações referentes às disciplinas em que tenha sido reprovado, quantas vezes forem necessárias, até conseguir o tão necessário diploma, pelo menos para tornar o curriculum mais atraente aos olhos dos empregadores.

Em outro extremo, seminários e apresentações dos "gurus da administração" realizam-se em hotéis luxuosos e resorts, atraindo executivos e candidatos a administradores com informações sobre novas tendências e metodologias do mundo do management. O fato de que grande parte dos métodos apresentados (supostamente capazes de transformar qualquer mortal com suficiente ambição em um super-homem que prefere o terno ao uniforme) simplesmente não funciona na confusa e constantemente alterada realidade de nossas organizações parece não abalar os ânimos de quem se dispõe a pagar quantias vultuosas em troca do privilégio de conferir os dons oratórios de verdadeiros mestres da programação neuro-lingüística. Nos comerciais de suas palestras apresentados na TV, é comum o encerramento com uma "frase de efeito" do tipo: "E lembre-se: dinamismo e produtividade, eis o segredo do sucesso!" A estrutura desse tipo de frase é aritmética: "alguma coisa" mais "alguma coisa" é igual a "alguma coisa maior", ou "dois mais dois é igual a quatro"; uma idéia simples presente no inconsciente coletivo e capaz de dar a certeza de que o que quer que esteja sendo dito é a mais absoluta verdade. (Faça você mesmo a sua "frase de efeito" para administradores: substitua, na frase acima, "dinamismo" e "produtividade" por quaisquer coisas que aparentem ser uma virtude para quem está no mundo dos negócios. Por exemplo, "uma postura pró-ativa" e "constante reciclagem". Se quiser, escreva a frase em um papel e cole em sua mesa de trabalho, bem à vista de todos, como se ela fosse o seu lema de trabalho. Acha isso ridículo? Então você não está a par dos novos métodos de motivação utilizados por algumas empresas...). Note-se também que nenhum evento desse tipo representa qualquer custo por parte dos participantes, apenas um investimento. A palavra custo é absolutamente proibida nos folders de divulgação, já que não carrega a conotação de algum retorno pela quantia desembolsada.

Entre os dois extremos, podemos encaixar muitos cursos profissionalizantes de qualidade duvidosa e a enorme quantidade de cursos de computação surgidos com o processo de informatização das organizações. Em alguns destes, o aprendizado de aplicativos simples como um processador de textos chega a arrastar-se ao longo de seis meses, na forma de uma hora de aula por semana, seguindo o bastante conhecido método "receita de bolo": clique aqui, selecione aquilo, clique lá, salve e, meus parabéns, você conseguiu! Já pode enfrentar uma prova prática para ser contratado em qualquer empresa que exija conhecimentos em informática. Desde, é claro, que a prova seja aplicada dentro de um período máximo de dois meses, que é o tempo médio em que qualquer um que não possua um computador em casa consegue lembrar do que aprendeu dessa forma.

Livros e periódicos enchem as prateleiras de livrarias e bancas de revistas com propostas de novas posturas para o profissional atento às modificações no mercado de trabalho. E haja novas posturas para preencher centenas de páginas de tantas publicações, algumas semanais, e garantir sua continuidade. Nas livrarias é possível confundir a seção de livros de administração com a seção de obras infanto-juvenis, tamanha a quantidade de autores que, tentando não ser enfadonhos, acrescentam cor excessiva a suas obras. Capas com onomatopéias e ilustrações de intento humorístico procuram transmitir a idéia de que estamos diante de obras cuja abordagem da administração é inusitada, em uma mescla de idéias inovadoras e uma atitude bem-humorada diante das atribulações por que passam os administradores. Não raro, entretanto, as idéias apresentadas nesses manuais de administração mostram-se boas somente enquanto jogada de marketing para alavancar as vendas de suas editoras.

É possível até mesmo traçar um paralelo entre os métodos utilizados em certos templos religiosos surgidos nos últimos anos e o sistema de vendas dos charlatões da empregabilidade: consistem, basicamente, na exploração da falta de perspectivas e da necessidade do vislumbre de um futuro mais promissor. Seja através do pagamento de dízimos a falsos pastores ou pelo desembolso de altas somas em troca dos ensinamentos de um "guru" (saliente-se a utilização de termos de cunho místico em meio empresarial, utilizados em tom jocoso mas refletindo a idéia da posse de poderes sobre-humanos pelos que seriam capazes de conduzir seus discípulos ao "paraíso"), o que se apresenta a quem busca ajuda é sempre a idéia de que "quanto maior o investimento, maior é o retorno", deixando claro que, caso o pagante não atinja seus objetivos, deve continuar tentando - e "investindo" - até que sua persistência seja recompensada. Em suma, a mais antiética utilização da fé de quem se encontra necessitado de apoio.

Exigências descabidas de algumas empresas para a contratação de pessoal também colaboram com esse quadro. Mão-de-obra excedente e queda no número de vagas nas empresas significam a possibilidade de aquisição de bons profissionais a baixos salários, e com freqüência para cargos nos quais suas aptidões são mal utilizadas e não seriam necessários todos os conhecimentos exigidos. Estes chegam a assumir a forma de modismos, como é o caso da fluência na língua inglesa. Há casos em que o "inglês fluente" é exigido como aptidão imprescindível até mesmo para cargos como o de digitador, em organizações que não praticam o comércio exterior ou necessitam elaborar qualquer correspondência em inglês.

Evidentemente, não se pode deixar de valorizar a educação como fator primordial tanto para o crescimento profissional quanto pessoal de qualquer cidadão. Aprender um novo idioma, ler bons livros sobre a área em que se pretende atuar e assistir a palestras ministradas por profissionais de renome pode ser relevante para a obtenção de uma boa colocação no mercado de trabalho, mas é importante que se esteja atento aos oportunistas que sempre surgem em momentos de crise. Bom senso é a única resposta ao bombardeio de informações contraditórias e modismos que permeiam o mercado de trabalho. E lembre-se: interesse e desvelo, eis o segredo do bom profissional (alguém aí tem alguma dúvida?).
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